Módulo 1 · Aula 3

Os Fundamentos Clássicos da Filosofia do Tempo

Heráclito, Platão e Aristóteles: os três textos que fundaram o problema do tempo no pensamento ocidental e que ainda organizam, em silêncio, a forma como pensamos o tempo no cotidiano.

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Registro metodológico: esta aula opera em registro filológico e filosófico. As fontes são primárias, lidas na sua literalidade em tradução verificada. As categorias utilizadas, Aion, tempo como imagem da eternidade, número do movimento, são categorias dos próprios textos antigos, não da fenomenologia nem da psicanálise. A articulação com essas duas perspectivas será feita nas Aulas 5 e 6 do Módulo 2.

Seção 1 · Ponto de partida

A Pergunta pelo Tempo

O que é o tempo? A pergunta atravessou a filosofia desde a sua aurora e produziu, antes da Era Comum, três grandes respostas no mundo grego: a heraclítica, a platônica e a aristotélica. Estudá-las não é exercício de erudição. É reconhecer que cada uma dessas três respostas continua viva nas formas como hoje nomeamos o tempo.

Quando alguém diz que o tempo passa e que nada permanece, fala em registro heraclítico. Quando alguém entende o tempo como ordem regular do cosmos, fala em registro platônico. Quando alguém mede o tempo pelo relógio, pelo número de tarefas concluídas, pelos passos contados no celular, fala em registro aristotélico. As três respostas são incompatíveis entre si em suas formulações finais, mas operam simultaneamente no cotidiano, e essa coexistência é o que produz boa parte da confusão contemporânea sobre o que o tempo é.

Sem o trabalho exegético sobre esses três textos, qualquer discussão posterior sobre temporalidade flutua sem ancoragem. Heráclito enuncia o problema. Platão lhe dá uma formulação cosmológica de imensa influência. Aristóteles oferece a primeira definição técnica que permitiu, durante dois milênios, todas as discussões filosóficas posteriores.

✦ Para refletir

Das três formas de falar sobre o tempo descritas acima, qual mais se aproxima de como você vive o tempo na maior parte dos seus dias? Há momentos em que você oscila entre elas?

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Seção 2 · Fonte primária

Heráclito e o Aion como Jogo

Heráclito de Éfeso (c. 540 a 480 a.E.C.) é o primeiro pensador a fazer do tempo um problema filosófico, e o faz em fragmentos de extrema densidade conceitual. O fragmento mais denso sobre o tempo é o DK 52, conservado por Hipólito de Roma e por outras fontes antigas. ¹ Na tradução brasileira de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski, lê-se:

"O tempo (Aión) é uma criança, criando, jogando o jogo de pedras, vigência da criança."

(HERÁCLITO, DK 52. In: CARNEIRO LEÃO; WRUBLEWSKI, 2017, p. 73)

A literalidade do fragmento merece atenção. Em grego, a palavra usada não é chrónos, o tempo medido e sequencial das Aulas 1 e 2, mas aiôn, termo que designa originalmente a duração da vida e, em sentido cósmico, a duração total do mundo. A escolha lexical não é casual. Ao dizer que o Aion é uma criança que joga, Heráclito retira do tempo cósmico a regularidade racional que a cosmologia milesiana lhe atribuía e o aproxima do imprevisível, do não calculável, do que se decide a cada lance de dado.

Há quatro elementos no fragmento que merecem atenção exegética.

O que o fragmento diz, elemento a elemento:
  • Uma criança joga: o tempo cósmico não tem plano, não tem teleologia, não realiza um propósito. É jogo.
  • Jogo de pedras: em grego, petteia, jogo de tabuleiro com peças que se movem. A ordem do tabuleiro existe, mas o resultado de cada lance é aberto.
  • Vigência da criança: o poder de decidir pertence à criança, não ao adulto, não à razão calculante. O tempo é soberano no sentido do imprevisto.
  • Aion, não chrónos: Heráclito distingue dois tempos antes mesmo de nomeá-los explicitamente. O Aion é o tempo qualitativo da vida e do mundo; chrónos virá depois, com Platão e Aristóteles.

A força conceitual do fragmento está na recusa de uma teleologia. Não há plano oculto que se realiza no tempo. Há um jogo cuja regra é o próprio jogar. Essa intuição percorre toda a tradição filosófica posterior: encontra-se em Deleuze, que leu Heráclito atentamente ao construir a oposição Chronos contra Aion na Lógica do sentido, que a Aula 2 trabalhou. E encontra-se, de outra forma, na clínica psicanalítica, quando Lacan descreve o momento de concluir como ato que não aguarda certeza completa, que arrisca como quem lança pedras no tabuleiro.

✦ Para refletir

Se o tempo é um jogo de criança, sem plano garantido, o que muda na forma de se relacionar com o futuro? O que a imagem da criança jogando diz sobre a ansiedade diante do que ainda não aconteceu?

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Seção 3 · Fonte primária

Platão e o Tempo como Imagem Móvel da Eternidade

Platão (c. 427 a 347 a.E.C.), no Timeu, propõe uma das definições mais influentes do tempo na história da filosofia ocidental. O diálogo descreve a criação do cosmos pelo demiurgo, e é nesse contexto que o tempo aparece. Na passagem 37c-38c, o Timeu apresenta a geração do tempo como ato deliberado do demiurgo ao ordenar o céu. Na tradução de Rodolfo Lopes, publicada pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos de Coimbra:

"Pensou, assim, em criar uma imagem móvel da eternidade e, ao mesmo tempo que ordenava o céu, criou da eternidade que permanece na unidade uma imagem eterna que avança segundo o número, a que chamamos tempo."

(PLATÃO, Timeu, 37d. In: LOPES, 2011, p. X) ²

Quatro elementos da definição platônica merecem destaque exegético.

O que a definição de Platão contém:
  • O tempo é imagem (eikón): não é a realidade última, é a representação móvel de algo que permanece imóvel, a eternidade.
  • O tempo avança segundo o número (kat' arithmón): aqui está a fonte conceitual de toda futura matematização do tempo. O tempo se conta porque é, em sua estrutura, contagem.
  • O tempo é cósmico antes de ser subjetivo: não é categoria da experiência individual, é dispositivo do universo ordenado pelo demiurgo.
  • O tempo é derivado: secundário em relação à eternidade que ele copia. A eternidade é o modelo; o tempo é a imagem em movimento.

A tese platônica tem consequências de longa duração. A matematização do tempo, que ganha forma plena em Aristóteles, encontra em Platão sua justificativa ontológica: se o tempo é, em si mesmo, número, então medi-lo não é violência sobre a experiência, é fidelidade à sua natureza.

Há também uma consequência clínica que vale registrar agora, antes de desenvolvê-la na seção final. A definição platônica do tempo como imagem degradada de uma eternidade perfeita ressoa em certas configurações melancólicas contemporâneas: o sujeito que experimenta a vida como cópia inferior de algo que deveria ser, que sente que o tempo vivido nunca está à altura do tempo que deveria estar vivendo. Platão não descreve esse sofrimento, mas a sua cosmologia o torna conceitualmente possível.

✦ Para refletir

Platão diz que o tempo é uma imagem móvel de uma eternidade imóvel. Há momentos em que você experimenta o tempo como algo que "não está à altura" de uma ideia de como as coisas deveriam ser? Como descreveria essa experiência?

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Seção 4 · Fonte primária

Aristóteles e a Definição Técnica do Tempo

Aristóteles (384 a 322 a.E.C.), na Física IV, capítulos 10 a 14, oferece a primeira definição técnica do tempo na história da filosofia. A definição é celebrada e tem sustentado, com modificações, mais de dois mil anos de discussão. Na tradução de Lucas Angioni, publicada pela Editora da Unicamp:

"O tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois."

(ARISTÓTELES, Física IV, 219b1-2. In: ANGIONI, 2009, p. X) ³

O movimento filosófico de Aristóteles é preciso. Ele pergunta o que existe no tempo e responde: o movimento e a mudança. Pergunta o que o tempo é, em sua essência, e responde: o tempo é o que conta no movimento o antes e o depois. Ou seja, o tempo não é o movimento em si, é a estrutura numerável do movimento.

O que a definição de Aristóteles implica:
  • O tempo é objetivo: propriedade do movimento das coisas, não da consciência que percebe.
  • O tempo é mensurável por princípio: contar antes e depois é a sua definição mesma. O relógio não é convenção arbitrária, é expressão da natureza do tempo.
  • O tempo precisa de uma alma que conte: Aristóteles explicita, no capítulo 14 da Física IV, que sem uma psiquê que numere o movimento, não haveria tempo em ato. Há aqui uma tensão produtiva entre objetividade física e dependência da consciência que conta.
  • Antes e depois como estrutura: o tempo não é circular nem pontual. É sequência, e a sequência tem direção.

Duas objeções à definição aristotélica precisam ser registradas, porque ambas são centrais para o que virá nas aulas seguintes do curso.

A primeira é bergsoniana. Bergson, ao final do século XIX, afirmará que Aristóteles não pensou o tempo, pensou a espacialização do tempo. Contar antes e depois é projetar o tempo sobre uma linha espacial, e a linha não é tempo, é geometria. O tempo real, a durée, escapa por princípio à contagem. Essa objeção será desenvolvida na Aula 4 do Módulo 2. Por ora, vale registrá-la como o ponto em que a fenomenologia contemporânea do tempo nasce.

A segunda é husserliana. Husserl mostrará que o tempo da consciência tem estrutura própria que não se deixa reduzir ao antes e depois de Aristóteles: há retenção do que acabou de passar e protensão do que está por vir, ambas constituindo o presente vivo. A experiência do tempo é espessa, não pontual. Também será desenvolvida na Aula 4.

✦ Para refletir

Aristóteles diz que o tempo é o número do movimento. Se o relógio mede o movimento das ponteiros, e o calendário mede o movimento da Terra, o que fica de fora quando reduzimos o tempo a esse número? O que na sua experiência não cabe nessa medida?

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Seção 6 · Implicações clínicas e existenciais

As Três Temporalidades Clássicas na Clínica Contemporânea

As três respostas gregas ao problema do tempo não ficaram nos textos antigos. Elas operam, com nomes diferentes ou sem nome algum, na escuta clínica contemporânea. Reconhecê-las é ampliar o que pode ser ouvido.

O registro aristotélico e o sofrimento do calendário

Aristóteles funda o tempo do calendário: número do movimento, sequência contável, antes e depois. Quando o sujeito sofre por não cumprir o calendário, por não ter feito o suficiente, por estar atrasado em relação a onde deveria estar, sofre dentro do regime aristotélico. O tempo é tratado como recurso contável que se gasta ou se economiza. A aceleração contemporânea descrita por Rosa, e o esgotamento descrito por Han, habitam esse regime: é o tempo do relógio que governa, e o sujeito que não acompanha o ritmo do relógio é declarado improdutivo, atrasado, falho.

O registro platônico e o sofrimento da cópia

A definição platônica do tempo como imagem móvel de uma eternidade perfeita ecoa em certas configurações do sofrimento contemporâneo. O sujeito que experimenta a vida como cópia inferior de algo que deveria ser, que sente que o tempo vivido nunca está à altura de uma ideia de vida correta ou plena, que vive com a sensação permanente de que o real decepcionou o ideal: esse sofrimento tem estrutura platônica. Não é necessário que o sujeito tenha lido Platão. A estrutura opera como pressuposto não tematizado.

O registro heraclítico e a abertura ao imprevisto

O fragmento de Heráclito não descreve sofrimento. Descreve abertura. O tempo como jogo de criança é o tempo em que o resultado não está dado de antemão, em que cada lance é real e não determinado. Clínicamente, esse é o registro do sujeito que consegue habitar a incerteza sem precisar controlá-la, que reconhece o instante sem precisar calcular todas as consequências antes de agir. É o que Lacan chamará de momento de concluir: o ato que arrisca sem aguardar a certeza completa. O registro heraclítico, nesse sentido, é o mais próximo da temporalidade do desejo, e o mais distante da temporalidade da ansiedade.

As três temporalidades convivem no mesmo sujeito, às vezes na mesma sessão. A escuta que as reconhece pode nomear, com mais precisão, o lugar exato em que a relação com o tempo se quebrou.

✦ Para refletir

Pense em uma situação recente em que você sofreu com o tempo. Qual dos três registros, aristotélico (o relógio), platônico (a cópia inferior) ou heraclítico (o imprevisto que não conseguiu habitar), descreve melhor o que estava acontecendo?

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Síntese

O que fica desta aula

Pontos centrais
  • Heráclito, Platão e Aristóteles produziram as três respostas fundadoras ao problema do tempo no pensamento ocidental, todas antes da Era Comum.
  • Heráclito: o Aion é uma criança que joga. O tempo é jogo aberto, sem plano garantido, soberanamente imprevisível.
  • Platão: o tempo é imagem móvel da eternidade, avança segundo o número, e é ontologicamente derivado em relação ao eterno imóvel.
  • Aristóteles: o tempo é o número do movimento segundo o antes e o depois. Primeira definição técnica, fundadora da matematização do tempo.
  • As três respostas são incompatíveis entre si, mas coexistem na linguagem cotidiana e no sofrimento contemporâneo com o tempo.
  • A objeção central às três é que pensam o tempo como propriedade do mundo, não da subjetividade. A fenomenologia do Módulo 2 parte dessa objeção.

Verificação de aprendizado
Quiz da Aula 3

Cinco questões de verificação. Cada resposta incorreta é um convite à releitura da seção correspondente.

1. Qual palavra grega Heráclito usa no fragmento DK 52 para nomear o tempo como jogo de criança?

2. Como Platão define o tempo no Timeu?

3. A definição aristotélica do tempo é:

4. Qual objeção Bergson faz à definição aristotélica, segundo a aula?

5. O registro heraclítico do tempo corresponde, clinicamente, a qual experiência?

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Prática da Aula 3

Esta prática não é intelectual. É um exercício de reconhecimento. Você não precisa saber filosofia para responder: precisa prestar atenção na sua experiência dos últimos dias.

¹ O fragmento é numerado DK 52 na edição crítica de Diels-Kranz (Die Fragmente der Vorsokratiker). A tradução citada é a de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski: ANAXIMANDRO, PARMÊNIDES, HERÁCLITO. Os pensadores originários. Petrópolis: Vozes, 2017. O mesmo fragmento aparece, com tradução ligeiramente distinta, em edições anteriores (1991, 1993). A numeração DK 52 é estável em todas as edições.

² A paginação exata do Timeu 37d na edição de Lopes (Coimbra, 2011) deve ser verificada contra o exemplar antes de qualquer publicação final. A passagem é canônica e identificável pela numeração grega, 37c-38c, em qualquer edição.

³ A paginação exata de Física IV, 219b1-2 na edição Angioni (Unicamp, 2009) deve ser verificada contra o exemplar. A numeração aristotélica (Bekker) é estável em todas as edições: 219b1-2 é a referência canônica, utilizável independentemente da edição.

A objeção bergsoniana à aristotelização do tempo é desenvolvida em BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Lisboa: Edições 70, 2011, e Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 2010. Será trabalhada na Aula 4 do Módulo 2.

A objeção husserliana ao tempo aristotélico está nas Lições para uma fenomenologia da consciência interna do tempo. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994. Será trabalhada na Aula 4 do Módulo 2.

Referências Bibliográficas

ANAXIMANDRO, PARMÊNIDES, HERÁCLITO. Os pensadores originários. Introdução e tradução de Emmanuel Carneiro Leão e Sérgio Wrublewski. Petrópolis: Vozes, 2017. (Edições anteriores: 1991, 1993.)

ARISTÓTELES. Física I e II. Prefácio, tradução, introdução e comentários de Lucas Angioni. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.

ARISTÓTELES. Física III e IV. Tradução de Lucas Angioni. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.

BERGSON, Henri. Ensaio sobre os dados imediatos da consciência. Tradução de João da Silva Gama. Lisboa: Edições 70, 2011. (Leitura complementar para a Aula 4.)

HUSSERL, Edmund. Lições para uma fenomenologia da consciência interna do tempo. Edição de Martin Heidegger. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1994. (Leitura complementar para a Aula 4.)

LOPES, Rodolfo (tradutor). PLATÃO. Timeu-Crítias. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2011.

Próxima aula
A Consciência Interna do Tempo: Husserl e Bergson
O tempo não é apenas propriedade do mundo. É estrutura da consciência.